Realização: Lee Unkrich
Ano: 2010
Género: Animação
País: EUA
No início dos anos 90 um projecto ambicioso liderado por John Lasseter viria a dar que falar em 1995, estreando-se como o primeiro filme totalmente realizado com CGI. Estamos a falar de Toy Story. Passado 4 anos deste mega sucesso surge uma das mais bem sucedidas sequelas de sempre na história do cinema. Em 2010 e passados 15 anos após o original, surge Toy Story 3 a comando de Lee Unkrich. Um filme que ‘á priori’ eleva a fasquia demasiadamente alta uma vez que os dois filmes anteriores são um marco na história do cinema de animação por computador. E como dizia o próprio realizador, ‘quem quer fazer o primeiro filme mau da Pixar?’.

Mas a resposta a esta pressão não podia ter sido melhor. Aquilo que espantou e desiludiu alguns na minha opinião foi um passo de grande coragem. Este filme está intencionalmente não vocacionado para um target infantil. Porquê?É fácil de perceber. Os verdadeiros fãs de Toy Story que foram motivados a ir ver o terceiro capítulo são maioritariamente de outra geração, e que começa nos 17-18 anos até 30 porque em 1995 Woody e Buzz Lightyear preencheram o coraçam de crianças dos 3 aos 15 anos (pelo menos). Então qual é o objectivo em fazer um capítulo, passados 15 anos do original infantil? Se ainda por cima esta saga nunca o foi propriamente dito?Podem discordar do que digo, mas a prova é ir aos cinemas e ver que pessoas entre os 18-30 anos saem maravilhados e os miudos mais pequenos não distinguem um Toy Story de outro filme medíocre infantil, e por vezes na sala de cinema são os risos dos adultos e dos pais que se sobressaem ao das crianças e filhos.A primeira marca que porva isto foi o facto deste filme não se tratar de mais uma aventura de Woody e o seu gang. Este filme mostra um problema real (dentro do universo Toy Story) que é a passagem do tempo e o desintresse de Andy pelos seus brinquedos. O tema lida com emoções muito fortes para quem cresceu com estes filmes, para um miúdo de 5 anos a quem aqueles brinquedos não lhe dizem nada, é impossível apreciar do mesmo modo que eu apreciei.Lee Unkrich mostrou total desinteresse em fazer mais um filme genérico da Disney para ‘todas as targets’, este filme é claramente para uma target muito específica, é para a target que cresceu com Woody e Buzz sendo seus ídolos.
O filme começa de uma forma brilhante, somos levados para dentro do universo das brincadeiras de Andy. Tudo o que ele imagina, acontece de verdade. Assistimos a pequenos momentos onde os brinquedos ainda preenchiam o seu dia-a-dia. A transição temporal é acompanhada pela fantástica música ‘You Got a Friend in Me’, em que termina exactamente quando se ouve’… a friendship will never die …’ É arrepiante esta transição, entretanto assistimos ao estado das coisas no presente e a uma última tentativa por parte dos brinquedos, em vão, de voltarem a ser usados pelo Andy. Mas ele tem 17 anos e está a mudar-se para a faculdade, terá de escolher aquilo que fica e o que leva para a faculdade, e ainda o que vai para o lixo. Acontece que embora tenha sido sua intenção por os brinquedos excepto Woody no sótão, acabam todos numa caixa pronta para ser doada á creche Sunnyside.
Muitas aventuras acontecem, aquilo que somos levados a crer desmorona-se passado uns tempos, Sunnyside não é assim tão Sunny como Lotso fez ver aos brinquedos de Andy. A primeira hora do filme fez-nos pensar que Sunnyside era o pior lugar do mundo para aqueles brinquedos, embora tenha os seus momentos nostálgicos e tristes, somos constantemente bombardeados com piadas e situações inteligentes, que garantem a boa disposição. O momento da fuga é acompanhado de momentos cómicos, onde Buzz revela o seu Spanish Mode. E é depois disto, de pensarmos que os brinquedos estavam a salvo ao sair de Sunnyside que tudo se vira do avesso. Lotso apanha-os mesmo á saída e vêm-se todos dentro da camioneta do lixo prontos para serem despejados.Há uma cena neste filme que vai determinar muito o desenrolar até ao final, que é quando os 3 LGM (Little Green Men) se aproximam da garra e são imediatamente empilhados num monte de lixo por um camião. Apesar de não ser um grande choque termos de lidar com a ‘morte’ destas personagens a intenção de pô-las fora do nosso imaginário é propositada dado a importância que vão ter posteriormente. O momento mais comovente e de cortar a respiração, feito alguma vez em animação, vai decorrer a partir daqui. O grupo é levado para um tapete rolante onde separa e tritura o lixo. Somos sempre primeiro confrontados com o problema e só depois com a solução, provocando um suspense enorme de altos e baixos, á volta de todas as cenas. Primeiro surge um portal que desfaz completamente os brinquedos, mas onde tudo o que é metal se agarra a um íman no tecto, evitando assim as lâminas. Todos os brinquedos de Andy se salvam. Mas Lotso, preso no meio do lixo, implora por ajuda é então que Woody e Buzz decidem dar-lhe uma hipótese. Fomos levados a crer que Lotso está finalmente do ‘nosso’ lado. E é bom que esteja dado que a próxima paragem é um incenerador e é a ele que vai caber a missão de salvar os outros. Lotso avista uma escada de emergência que dá a um botão STOP. Woody deixa então a grande missão a Lotso de o salvar a ele e aos seus amigos. Mas na hora da verdade, Lotso vira costas e os brinquedos caem no incenerador. As imagens seguintes são de uma brutalidade imensa, somos levados a crer que de facto já não há nada a fazer.
O que é a previsibilidade num filme da Pixar? Final feliz? Mas o que acontece quando todos os elementos do filme nos levam a crer o contrário (tal é a forma que estamos imersos no filme, que nos esquecemos de que é da Pixar)? A previsibilidade é quando tudo aponta para um final que se vem a verificar. Mas em Toy Story 3, nada para além do facto de ser um filme para ‘Todos’ e por ser um filme Pixar, nos leva a acreditar que o filme vai acabar bem.
A cena em que as personagens aceitam a morte, dando as mãos e fechando os olhos perante o incenerador é brutalmente genial. Será que se trata de um filme para um target infantil compreendido entre os 3-15 anos, como se tratou há 15 anos com o original? Na minha opinião, de modo algum, lembro-me que assistir a cenas do Toy Story 2, como a cena (dentro do jogo que Rex jogava) em que o Buzz Lightyear era aniquilado da cintura para cima, ou como a parte em que Woody sonhava que Andy o deitava no lixo, já eram brutais quando tinha eu os meus 7-8 anos. Penso que assistir a um Toy Story 3 com essa idade daria comigo numa enorme depressão.
Mas eis que (para aqueles que não mergulharam na atmosfera do filme) a previsibilidade surge, os 3 LGM apoderam-se dos comandos da ‘garra’ que salvam os nossos heróis. Lee Unkrich quis mesmo testar até á última o nosso afecto pelas personagens. Após isto somos brindados com um presente em jeito de justiça, em que um homem do lixo encontra Lotso e por questões nostálgicas o amarra á parte da frente do camião.

O filme acaba como começa, com uma cena igualmente genial. Woody está prestes a deixar os seus amigos na caixa para o sótão enquanto ele vai para a faculdade com Andy. Mas eis que tem uma ideia súbita, e decide escrever num papel para doar os brinquedos enfiando-se também na caixa. O filme acaba então quando vemos Andy a dar brinquedo a brinquedo, enumerando as suas virtudes. A cena final mostra Andy e Bonnie a brincar com os brinquedos uns dos outros, e apercebemo-nos de que o tempo realmente é irreversível, e de que a melhor coisa que podemos fazer é adaptarmo-nos á mudança com naturalidade. Os takes finais entre os créditos mostram que a adaptação deles foi bem conseguida, e que através da mochila de Bonnie comunicam com Sunnyside, liderado agora por Ken e Barbie. Estes takes também servem como um digestivo das cenas anteriores, para que possamos sair do cinema e dizer que foi um filme divertido, mas muito mais que isso, Toy Story 3 mostrou ser um filme adulto e com o binómio causa/consequência sempre presente. De salientar ainda que este é o filme da Pixar visualmente mais bem detalhado e trabalhado, quer expressões faciais quer a envolvência dos cenários/ambiente. De referir ainda que o 3D é meramente acessório.
Nota final: 10/10
por Francisco Oliveira.
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